2 de fevereiro de 2014

Obediência

Pegando carona em um meme que está correndo o facebook

Quando eu tinha dez anos, só tinha dez anos mesmo e uma inocência cavalar comparada as crianças dos dias atuais, sem entrar no mérito da questão. Às vezes me pergunto como consegui chegar até aqui, quarenta e tantos anos, com tão pouco jogo de cintura. E não é só porque não sei sambar.
Outro dia estava em Salvador com uma amiga e a vi atravessando na frente dos carros com uma desenvoltura tão grande, enquanto eu esperava, estática e atônita, o sinal abrir.
Acho que ser obediente é meu mal.
Acho que ser obediente é muito bom para a sociedade que nos enquadra em regras, mas péssimo para o indivíduo.
Eu, que sempre me achei meio subversiva, por não agir, nem pensar como a maioria, envelheço crendo no contrário. E não desejo isso pra ninguém.

Querido espelho meu

Sinto falta do tempo em que os blogs faziam sentido.

1 de fevereiro de 2014

A cidade

É preciso que alguma coisa faça sentido
enquanto bebemos goles e goles de vodca.
Ou jogamos café pelo ralo da pia,
 ainda quente, em um dia frio.

Te mando o bilhete do trem
cartão no teu aniversário
a foto do casamento dos teus pais
e aquela outra, de tua irmã, ainda criança,
fazendo pose
em frente a árvore de natal.

Naquela cidade pequena
esquecida no tempo de alguém
que não sou eu

Não, não sou eu

Nem a menina de nome estranho
que vinha
insistentemente
nos chamar para a rua.

(Perdidos todos os mapas
estamos às moscas como os sonhos
na padaria
de seu  Januário)

nem tu, nem ninguém mais

Anne  Cerqueira
fevereiro/2014

O mundo

Não posso dizer quer o mundo
tem sido severo conosco,
meu amigo.
Mesmo que nos espalhe por ai
como penas ao vento
ou nos crave
árvores e falhas
em um único lugar do universo.

Nem posso dizer
(Mesmo agora
quando te ajudo a fazer as malas)
qualquer coisa
para atenuar a falta

é dia
faz sol
amanhã chove

e assim vamos
desfiando nossos rosários
nesse mundo
nem sempre afetuoso
nunca unânime
nunca fácil
talvez severo,
mas longe de mim dizer isso

eu que sequer me atrevo
a sair da cama
em alguns dias.

e oro baixinho
esperando que ninguém perceba
que tenho fé

ou esperança

estes fios
que nos movem
marionetes do nada


Anne Cerqueira
fevereiro 2014

28 de janeiro de 2014

Proa
 
Os rios estão aqui para nos levar
aos lugares que nunca saberemos.
Cheiros, vinhos, veios,
malas onde cabem o esquecimento,
esse fio
avesso da esperança.

Pai, mãe, barcos a vela
(proas
para romper a tormenta)
é preciso retomar a viagem.

Os rios estão aqui
e nada sabem
da distância (silêncio
que corta
a tarde)
encravada nas bagagens.

Anne Cerqueira.
janeiro/2014

19 de janeiro de 2014

Poema revisitado

Quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado. Vou ler um dos meus poemas
preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa anos em quarenta
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.
Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta.
Sou infantil, egoísta e confusa e quero te dar um presente, meu amigo
para que você me odeie profundamente
e diga:
não sei o que fazer com isso. E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa
nem má. Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta. Mas pela graça de Deus
não nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Verbo.
Meu amigo, não sei para que serve
e talvez seja esta sua única função.

Anne Cerqueira
2013

14 de dezembro de 2013

Lazy

Nível de preguiça no momento. Esperando que o mundo evolua tanto que chegue o dia em que a gente apague a luz e programe a televisão para desligar com a força do pensamento.


12 de dezembro de 2013

Vidro

anda por ai
esse coração que nada sabe

se parte mil vezes
ante o aço das paredes

nada sabe
esse coração
sob o aço das paredes

solto por ai
em invólucros de vidro
tão atônitos
quanto


(Anne Cerqueira, dezembro 2013)

28 de novembro de 2013

Parabéns para você

Antigamente era uma beleza fazer aniversário de criança. Diferente de hoje  que os pais contratam o serviço, chegam e saem junto com os convidados. 
Se duvidar, os preparativos começavam antes mesmo da criança nascer, fazendo estoque de leite condensado.
Quinze dias antes da festa tinha que juntar a família para adiantar os salgados. Na véspera, vinha todo aquele processo bacana de enrolar os docinhos e biscoitinhos-que-não-acabavam mais.
- Este negócio se reproduz com o ar? - reclamava a prima.
Tudo era praticamente feito em casa. Na minha infância, a moda era confeitar moldes de madeira, cheios de detalhes, e depois colocá-los sobre o bolo. Aleluia quando os enfeites de isopor se popularizaram.
Pois bem, era tanta coisa para fazer que ninguém ligava para o aniversariante, coitadinho, que acabava super stressado na festa.
Uma vez passei meses juntando cascas de ovos para transformar em palhacinhos e dar de lembrança do aniversário de Lu, minha filha mais velha.
Um cuidado extremo para pintar o rosto, colar o cabelo de lá e a gola de papel.
A maioria ficou em casa mesmo. No lixo, depois da festa. A criançada recebia a lembrança, se empolgava e esmagava o palhaço.
Mas era uma época boa para as papelarias.
A gente nunca viu tanto papel junto. 
Coitada da floresta Amazônica.
Recordo uma festa que fomos quando os meninos eram pequenos. A mesa estava coloridíssima, linda e super inflamável.
Não deu outra. As faíscas da vela se espalharam e tudo virou cinza em cinco minutos. Incluindo a toalha da Moranguinho.
Só sobraram os convidados - que saíram correndo em algazarra. E os salgados que a dona da casa tinha escondido para "quem chegasse depois".

23 de novembro de 2013

Duas asas

A prima casou com um comerciante abastado e levava uma vida confortável. Embora me parecesse simpática, falavam que gostava de se sentir superior aos outros. Para mim, que era criança, nada daquilo fazia sentido. Só me fascinava o fato da casa dela ser a única da família que tinha xícaras com duas asas.


17 de novembro de 2013

Identidade

Coisa que mais me acontece quando atendo o telefone no trabalho.

- Alô, falo com quem?
- Com Anne.
- Oi Tuane....

Onde foi que eu errei?

A gente trata os filhos com todo amor. Cuida da educação, da saúde. Fica atento se estão usando roupa de frio, se alimentando direito.
Com quem andam. Que horas vão voltar.
Sofre quando vão morar longe, mais ainda quando passam  meia hora sem dar notícias.
Esses clichês todos que envolvem o assunto.
Então, um belo dia, numa viagem da família, alguém lembra de ligar o som do carro. Você pede:
- Coloca a Jesuton. Aquela versão que ela fez da música do Elliott Smith.
E é bem neste momento que vem o golpe. O ser humano que você criou com-todo-amor-do-mundo, grita lá do banco traseiro quase em pânico:
- Não, pelo amor de Deus. Música boa não!