1 de março de 2012

Poema

quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado. Vou ler um dos meus poemas
preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa em quarenta anos
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta. Meus filhos vivem
a vida deles. Me beijam. Eu digo: podem ir,
mas é mentira.
Sou infantil, egoísta e confusa e quero te dar um presente, meu amigo
para que me odeie profundamente
e diga:
não sei o que fazer com isso. E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa
nem má. Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta. Nem nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Meu amigo, um presente de coração.

(Anne Cerqueira, fevereiro de 2012)

29 de fevereiro de 2012

Ação e reação

Pai e mãe estavam separados há muito tempo quando ele finalmente tomou coragem de nos apresentar a nova esposa. Nova é maneira de falar porque quando digo muito tempo estou dizendo muito tempo mesmo.  Então os dois vieram de Alagoas para cá e foram visitando um filho de cada vez. 
Lembro da gente em uma sorveteria, tudo muito bom e civilizado. Esse encontro também abriu as portas da casa deles em Maceió. Numa das idas até lá meu pai confessou que teve medo da minha reação. Ele achou que eu iria tomar as dores de minha mãe. "Vocês sempre foram tão ligadas". Para surpresa geral, pareci afável e amistosa.
Não podia responder pelo resto da família e também não tinha interesse de magoar o velho contando  realmente o que pensava. Por isso fiquei calada e não disse a verdade:
- Não há motivo para ressentimento porque nunca quis que vocês voltassem. Nunca sofri com a separação. Sabe? Não é que seja fácil, mas está muito melhor assim.

28 de fevereiro de 2012

Sem título

Agora que sou avó, sinto muita falta do tempo em que as avós sabiam tudo.


Ou quase tudo

27 de fevereiro de 2012

In real

A louca das dores musculares baixou em mim outra vez. Mal consigo mexer o pescoço. Nenhum Oscar para Brown. Não esperei, dormi sem ver quase nada porque ia acordar cedíssimo hoje. Gwyneth e Jennifer Lopez lindíssimas. E opostas. Jean Dujardin agradeceu o prêmio de melhor ator com uma frase em francês. Achei o máximo quando vi hoje no telejornal. (Como dirão alguns de vocês: criatura provinciana essa Belas!). No mais, a vida segue como sempre. In real. E uma hora atrasada. Ou não. Nem sei mais.

Por que você tem um blog? Ah, porque adogo falar sozinha.

24 de fevereiro de 2012

Parênteses

(Minha vida é uma coisa tão espetacular de agitada que hoje é sexta-feira e eu estava crente que era segunda)

Bonsoir John-John

Primeiro estranhei a França fazer música para uma personalidade de outro país.
Depois entendi que a canção falava especificamente da morte do presidente Kennedy e dizia para o filho dele, na época com três anos: Agora que seu pai saiu em viagem e você é o homem da casa é preciso sabedoria. Não há tempo para guerra. Não chore mais, boa noite John-John.... (Pronto, coração mole totalmente derretido)
E por fim achei linda a interpretação delicadinha da France Gall.

20 de fevereiro de 2012

Yes, I weigh more than you....

Éramos um grupo de mulheres comendo pipoca e jogando conversa fora, quando uma criatura começou a se gabar de ter voltado de férias sem ganhar um grama sequer. No meio da conversa, ela emenda:
- Meu marido não gostaria que eu engordasse. Seria capaz de me largar.
Estava pensando no absurdo da afirmação e que mandaria para o espaço alguém que só me quisesse pela aparência, quando o papo se voltou para mim, claro. A gorda do grupo. A criatura perguntou se eu ainda estava de dieta, disse que não, etc e tal. Ai vem a alegação de sempre, preconceituosa, batida e sem um mínimo de imaginação:
- O importante é a gente se sentir bem, não é? Mas é preciso se preocupar com a saúde.
Enchi a mão de pipoca só para provocar (nunca disse que era madura) e fui cuidar da vida.
Nenhuma das cirurgias que fiz até hoje teve relação com meu peso.

Yes. No.

19 de fevereiro de 2012

Fatos e fotos


Afoxé Filhos de Gandhy, no carnaval de 1950, tomando o bonde no Largo dos 15 Mistérios, em Salvador. Foto de Antonio José Brandão Lima, via Facebook.

e a nova geração:


Gandhy mais lindo, vovó

Sem jeito

Escolho uma toalha de banho tinindo de linda para meu neto. Do Mickey. E o que acontece? O bebê fica cheio de fiapo azul pelo corpo. Tudo bem, perfeição é uma coisa que não existe mesmo. Sem contar que azul é cor da sorte.
Outro dia minha nora chega aqui em casa toda contente com a  fantasia do bebê para o carnaval. Pede para eu segurá-lo enquanto ela tira as fotos que irão parar no Facebook. Em um segundo arranco a gravata borboleta do palhacinho. Justamente O DETALHE da roupa toda.
Não dá mais para minimizar. É isso que você pensou: não acerto uma.

18 de fevereiro de 2012

A tal da festa

e a turba ensandecida:


Um beijo beliscão para quem me encontrar

Aninha na folia

Estava tudo como sempre no trabalho quando entra um grupo de outro setor chamando a gente para curtir o carnaval. Ali mesmo. Todo mundo fantasiado, com apitos e um trio elétrico de pilha (conhecido também como rádio). Vamos lá, é festa minha gente. Juro que ia me jogar embaixo da mesa, mas ouvi a frase mágica: vai ter lanche. Foi assim que minha sexta-feira reviveu o encanto dos antigos carnavais pelo menos por vinte minutos: eu me escondendo atrás da turba, devorando pãezinhos de queijo e guardando chocolate no bolso para o turno de hoje. 
Como tudo nesse mundo tem que ter um pouco de drama senão fica sem graça, uma queixa: Ninguém pode nem trabalhar em paz no feriadão, meodeos!