20 de fevereiro de 2017

O mundo acaba amanhã
no quintal das nossas casas
as árvores balançam indiferentes
as rochas indiferentes
e o rio
corre em algum lugar. O mundo
acabará de qualquer jeito.
No quintal das nossas casas
as flores sem perfume desses tempos
talvez resistam
ao que trazemos
ou não trazemos
no peito. indefinidamente, o mundo acaba
amanhã.

Anne Cerqueira.
2017

15 de fevereiro de 2017

De que servem os retratos
senão para falar do tempo?
Nós duas meninas
e agora
esse atrapalhar de sapatos
nas pedras.
Essas pedras que cortam os rios
esses rios que nos levam
de volta aos retratos. Paisagem
que ninguém vê, foto Kirlian.
De que servem os retratos
senão pra falar do tempo.
Que dia é hoje?
Amanhã, amanhã
Anne Cerqueira
2016

29 de agosto de 2016

Preciso dormir vinte anos
e acordar amanhã
desavisada.
Varrer a casa,
ir a feira

Acordar tantas vezes
neste mundo
sem eira, nem beira
onde na verdade
ninguém
cabe

Dormir vinte anos
e acordar amanhã
de cabelo penteado,
roupa passada.
Igual a quem vai ao mercado
e vê o preço das frutas.

Troca a água do aquário.
Cuida do jardim
e nem sabe


Anne Cerqueira
2015

28 de agosto de 2016

Tudo foi feito
para caminhar
menos as árvores
e as pedras
cujo limo
encobre o peso
de ser pedra.
E as árvores.
Mas existem árvores
que se desconhecem
como árvores
e se não andam, caem.
Também não ficam no lugar
porque tudo
tudo mesmo
meu Deus
tudo
foi feito para caminhar.
Anne Cerqueira.
2016

6 de maio de 2016

Procuro o mapa da cidade
abraçada pelo rio
e que hoje se esconde na bruma.
Sei que ela ainda está lá
com suas casas perfiladas
e a face forjada em pedra
e ainda tem o rio
que alinhava tudo.
E os pães cobertos de abelha
e os trilhos do trem
e os pés molhados
com a água do rio
e seu incontrolável fluxo.
Mas falta a menina
e sua camiseta
cheia de dizeres
incompreensiveis.
Parece que ela sussurra
lá de onde está,
sem piedade de nós:
Meus amigos,
não sei bem como foi,
mas o amor
(rosa desfolhada sem cuidado)
caiu em desuso.


Anne Cerqueira.
maio 2016

23 de abril de 2016

Quase uma prece

Obrigada meu Deus pelo dia de hoje
não de ontem, nem de amanhã, 
mas de hoje que me levanto
e ando pela casa, molho as plantas, 
brinco com o cachorro
e acho que está tudo bem
porque está como sempre.
E tem o sol e tem a chuva, o dia,
a noite, os livros, as certezas sempre
piores do que não te-las.
E a janela de onde vejo os vizinhos
e suas vidas diáfanas e seus amigos
que existem para não deixá-los morrer
sozinhos.
E o jardim e a poesia e meu próximo
que se encharca de vinho e uísque
e dá risada como se tivesse descoberto a
pólvora ou a roda. Sua grande subversão.
A corrente de ouro

A cegueira diária
e tudo mais que nos engana.
Obrigada meu Deus, pois ando pela casa,
molho as plantas e leio um livro.
Subversão é estar vivo.


Anne Cerqueira
Abril 2016

16 de abril de 2016

Na vitrola a música interminável
(Faz tanto tempo de tanta coisa,
meu Deus)
e nós quietos, mudos, magros
sem saber dançar
Anne Cerqueira.
2016

4 de abril de 2016

O homem grita sem ser visto
além das pedras do cemitério antigo.
As montanhas, os vales
o grito que ecoa
sem lugar de partida.
Talvez peça ajuda
para atravessar o rio,
talvez apenas queira um pequeno
assombro...
o sopro dos dias
visco.
Mas quem de fato sabe 
o que quer
o que precisa
o homem que grita
sem ser visto?!

Anne Cerqueira
Abril 2016

25 de fevereiro de 2016

Só os fortes sobrevivem
diziam os mais velhos
e eu
desatenta aos sinais
regava as flores
no quintal imenso
da memória.
O disco na vitrola
o ultimo poema de Bukowsky
o ator que ninguém lembra
o nome
naquele filme de amor
incompreensível.
Só os fortes sobrevivem
diziam as mensagens
nas tardes de aniversário
cinzentas
da nossa infância.
Talvez a gente esqueça
que é preciso polir as pedras
mas evitar que elas caiam
silenciosamente
sobre nossas cabeças.
Eu e minhas flores
e o pó das pedras,
paciência.
Anne Cerqueira
Fev. 2016

31 de dezembro de 2015

Agora somos
os rostos que ocupam
os quadros na parede
sem o menor assombro

Nas páginas dos diários
na vida entre os dentes
na árvore cheia nomes
que nem lembramos mais
Somos o que não fomos ontem.

bença mãe
bença pai
Nós também
séculos de silêncio
talvez mais.

Anne Cerqueira
Dez.2015

16 de novembro de 2015

A vida espera na esquina
enquanto você tenta decifrar o último enigma
a canção que não entendeu e era
na sua língua.
A vida parece menos forte
aos
poucos.
Ela  cansa e você
nem nota
destoante
zonza
tonta
fingindo prestar atenção.

Anne Cerqueira
2015

11 de novembro de 2015

Poema

Abro a janela pela manhã
e lá está o poço envolvendo a casa.
O sol é o sol. As estações independem do teu comando
como se dissessem: vá, não há medo
mas o barco é de chumbo.

Então sigo com a vida que me espera.
O café da manhã,
o almoço com a família
os livros ainda sãos. Não na estante
nem na mesa ou atrás da porta
mas na memoria que agora
conta com a ajuda severa da natureza.

Penso: o que te livra do naufrágio?

Um barco de chumbo.
A quilha
torta.



Anne Cerqueira
novembro, 2015