6 de maio de 2016

Procuro o mapa da cidade
abraçada pelo rio
e que hoje se esconde na bruma.
Sei que ela ainda está lá
com suas casas perfiladas
e a face forjada em pedra
e ainda tem o rio
que alinhava tudo.
E os pães cobertos de abelha
e os trilhos do trem
e os pés molhados
com a água do rio
e seu incontrolável fluxo.
Mas falta a menina
e sua camiseta
cheia de dizeres
incompreensiveis.
Parece que ela sussurra
lá de onde está,
sem piedade de nós:
Meus amigos,
não sei bem como foi,
mas o amor
(rosa desfolhada sem cuidado)
caiu em desuso.


Anne Cerqueira.
maio 2016

23 de abril de 2016

Quase uma prece

Obrigada meu Deus pelo dia de hoje
não de ontem, nem de amanhã, 
mas de hoje que me levanto
e ando pela casa, molho as plantas, 
brinco com o cachorro
e acho que está tudo bem
porque está como sempre.
E tem o sol e tem a chuva, o dia,
a noite, os livros, as certezas sempre
piores do que não te-las.
E a janela de onde vejo os vizinhos
e suas vidas diáfanas e seus amigos
que existem para não deixá-los morrer
sozinhos.
E o jardim e a poesia e meu próximo
que se encharca de vinho e uísque
e dá risada como se tivesse descoberto a
pólvora ou a roda. Sua grande subversão.
A corrente de ouro

A cegueira diária
e tudo mais que nos engana.
Obrigada meu Deus, pois ando pela casa,
molho as plantas e leio um livro.
Subversão é estar vivo.


Anne Cerqueira
Abril 2016

16 de abril de 2016

Na vitrola a música interminável
(Faz tanto tempo de tanta coisa,
meu Deus)
e nós quietos, mudos, magros
sem saber dançar
Anne Cerqueira.
2016

4 de abril de 2016

O homem grita sem ser visto
além das pedras do cemitério antigo.
As montanhas, os vales
o grito que ecoa
sem lugar de partida.
Talvez peça ajuda
para atravessar o rio,
talvez apenas queira um pequeno
assombro...
o sopro dos dias
visco.
Mas quem de fato sabe 
o que quer
o que precisa
o homem que grita
sem ser visto?!

Anne Cerqueira
Abril 2016

25 de fevereiro de 2016

Só os fortes sobrevivem
diziam os mais velhos
e eu
desatenta aos sinais
regava as flores
no quintal imenso
da memória.
O disco na vitrola
o ultimo poema de Bukowsky
o ator que ninguém lembra
o nome
naquele filme de amor
incompreensível.
Só os fortes sobrevivem
diziam as mensagens
nas tardes de aniversário
cinzentas
da nossa infância.
Talvez a gente esqueça
que é preciso polir as pedras
mas evitar que elas caiam
silenciosamente
sobre nossas cabeças.
Eu e minhas flores
e o pó das pedras,
paciência.
Anne Cerqueira
Fev. 2016

31 de dezembro de 2015

Agora somos
os rostos que ocupam
os quadros na parede
sem o menor assombro

Nas páginas dos diários
na vida entre os dentes
na árvore cheia nomes
que nem lembramos mais
Somos o que não fomos ontem.

bença mãe
bença pai
Nós também
séculos de silêncio
talvez mais.

Anne Cerqueira
Dez.2015

16 de novembro de 2015

A vida espera na esquina
enquanto você tenta decifrar o último enigma
a canção que não entendeu e era
na sua língua.
A vida parece menos forte
aos
poucos.
Ela  cansa e você
nem nota
destoante
zonza
tonta
fingindo prestar atenção.

Anne Cerqueira
2015

11 de novembro de 2015

Poema

Abro a janela pela manhã
e lá está o poço envolvendo a casa.
O sol é o sol. As estações independem do teu comando
como se dissessem: vá, não há medo
mas o barco é de chumbo.

Então sigo com a vida que me espera.
O café da manhã,
o almoço com a família
os livros ainda sãos. Não na estante
nem na mesa ou atrás da porta
mas na memoria que agora
conta com a ajuda severa da natureza.

Penso: o que te livra do naufrágio?

Um barco de chumbo.
A quilha
torta.



Anne Cerqueira
novembro, 2015

24 de outubro de 2015

Batata coringa


Meu marido vive dizendo que vai me dar uma passagem de ida para o Peru, pois lá se cultiva cem ou duzentos tipos diferentes de batata. Hoje, na hora do almoço, lembrei disso quando percebi que coloquei no prato três tipos de alimentos diferentes  e todos a base de batata. Adoro o sabor e a versatilidade. Se eu fosse a chef Rita Lobo diria que o tubérculo é um alimento coringa: não pode faltar na cozinha e vai bem em quase todas as receitas. Ovo de galinha é outro alimento coringa. Então me lembrei de um vídeo de Paulo Gustavo vestido de dona Hermínia, personagem de minha mãe é uma peça. Ela foi passar férias num desses locais bem bonitos e badalados (Búzios ou Angra, nem sei) e ficou o tempo todo percorrendo vendas e armazéns em busca de uma dúzia de ovos que tinha esquecido de levar para a praia.
Sempre rio horrores porque é engraçado mesmo. Mas no fundo me dá dó porque revela a insustentável natureza humana, como cabe ao humor. A que tem tudo que precisa e nem percebe. A que quer se divertir e nem sabe como.

17 de agosto de 2015

Esboço

As pessoas tem uma vida para viver,
com certeza, elas tem
nas ruas, nos bares, no lusco
fusco das tardes
iguais a essa, sem literatura,
sem dourar pílulas, simples e
só.
Tarde inerte que nem aço
no trânsito
nas salas
nas frestas.
As pessoas
com certeza tem uma vida para viver.
Nesse mundo de meu Deus, uma vida
para viver
é uma maravilha
e é certo que todos tem.
E esse cansaço, assim, meio calado
e esse mapa que ninguém lê.

Anne Cerqueira
2015

19 de maio de 2015



Nem sempre há algo para ser dito
meu Deus
entre um gole e outro de café
e a louça para lavar.
O dia atropela tudo
e o rio visto pela janela flui
indiferente a mim e a você
e ao fato de ser rio
Então é isso. Os penduricalhos
de vidro
trincam sob o vento
enquanto a vida
sopra lá fora.
Não há mesmo muito a ser dito,
meu Deus.
Desconfio.
Anne Cerqueira.
2015

6 de maio de 2015

Ninguém me parece triste
com suas roupas de aço
seus relógios de ouro
marcando as mesmas horas

Ninguém parece reparar
fora de suas janelas
a paisagem ou além dela
seus relógios de ouro
suas roupas de aço

Penso, talvez não reste mesmo
muito além disso
as casas sobre as rochas
os vultos nas montanhas

o homem que grita
sem ser visto

e nós pisando as pedras
desse rio caudaloso.

Ninguém me parece triste
dessa tristeza que dá nó por dentro
com suas carapuças de couro
suas roupas de aço

Protegidos contra os ventos
e todo tipo de intempérie
os mais rudes sentimentos
ou os mais belos.


Anne Cerqueira