10 de maio de 2017

Lembro do tempo em que íamos até a praça
talvez um pouco embaraçados, mas vestidos com as melhores roupas, calçados com os melhores calçados. O cabelo penteado com afinco. Não era domingo, não era passeio. Não, não era domingo
era o fotógrafo
e a gente sorrindo, assim, meio sem graça
no três por quatro da vida inteira.
Peço a mãe: Mãe, fica na frente. Mas mãe sai e me olha
com olhar de ternura: menina mais bonita, meu Deus!
No documento da escola.
Na foto da identidade.
Na carteira do grêmio
Mãe, tudo isso era uma mentira. A placa de vidro, a caixa de madeira. E até quem passava. Alheio.
Menos nós duas.
E os três por quatro da vida inteira.
Anne Cerqueira.
2017

20 de fevereiro de 2017

O mundo acaba amanhã
no quintal das nossas casas
as árvores balançam indiferentes
as rochas indiferentes
e o rio
corre em algum lugar. O mundo
acabará de qualquer jeito.
No quintal das nossas casas
as flores sem perfume desses tempos
talvez resistam
ao que trazemos
ou não trazemos
no peito. indefinidamente, o mundo acaba
amanhã.

Anne Cerqueira.
2017

15 de fevereiro de 2017

De que servem os retratos
senão para falar do tempo?
Nós duas meninas
e agora
esse atrapalhar de sapatos
nas pedras.
Essas pedras que cortam os rios
esses rios que nos levam
de volta aos retratos. Paisagem
que ninguém vê, foto Kirlian.
De que servem os retratos
senão pra falar do tempo.
Que dia é hoje?
Amanhã, amanhã
Anne Cerqueira
2016