12 de novembro de 2009

Badulaques

Quando nasci dona Zilu já era amiga da familia. Acho que tinha um parentesco longe com meu pai, mas nunca me interessei em apurar o assunto. O que lembro é que ela falava muito alto e gesticulava demais, balançando umas trezentas pulseiras de ouro cheias de badulaques pendurados. Parecia um sino.
Nos anos 80 quando Lima Duarte fez sucesso na novela Roque Santeiro - como Sinhozinho Malta, balançando o relógio no pulso - o apelido dele lá em casa era... dona Zilu. Fora a personalidade forte, a criatura usava roupas coloridíssimas e perfume para deixar o mundo cheiroso por três meses. E eu adorava. Tudo. Mesmo sem entender isso na época, dona Zilu era um agente transgressor no meu universo certinho e discreto. E isso nunca pareceu uma ameaça, mas uma possibilidade. A possibilidade do mundo ser diferente do que nos ensinam e ainda assim funcionar.
Lá em casa criaram as filhas para serem ladies. Minhas irmãs estudaram em colégios internos - que eram o máximo na época - e a mais velha teve aula de piano por anos a fio. Já peguei o período das vacas magras e me livrei dessas coisas, mas não posso me queixar da atenção que recebi porque mesmo nos tempos mais difíceis - quando meus pais já haviam se separado - a atenção não faltou.
Mas por que estou falando sobre isso? Não sei. Acho que é  porque sempre penso nessas coisas quando me junto com o pessoal da empresa para falar bobagens que corariam um estivador. Quando sinto prazer em xingar (e xingo muito), quando sou grosseira para que o trabalho, a casa e a familia aconteçam. Para que eu aconteça. É nessas horas que me assusto: ''... Nossa, não fui  criada desta forma". E sei que tem gente que me conhece há séculos e nem sabe que sou assim e nem sabe que também não sou assim.
Sou discreta, mas gosto muito de coisas coloridas. Sou medrosa, mas exerço uma função que precisa ter vários planos bês na manga e tomar decisões rapidíssimas nos momentos de maior  tensão e stress. Sou patologicamente tímida, gaguejo e me enrolo, mas posso enrubescer alguém se estiver me sentindo à vontade.
Também nunca liguei muito para as coisas que são como devem ser, mas para as coisas que são como podem ser. E juro a vocês que é bem nessas horas que balanço minhas trezentas pulseiras imaginárias cheias de badulaques. Só não exagero no perfume. Ainda.

7 comentários:

Ana disse...

Sou patologicamente tímida, gaguejo e me enrolo, mas posso enrubescer alguém se estiver me sentindo à vontade.

Eu poderia escrever SAME HERE para o texto todo (tenho uma tia que já foi como "sua" Dona Zilu, hoje ela está apagada), mas essa parte me chamou especialmente a atenção.

Aí eu me lembro daquela fala de Ferreira Gullar (que estou usando no "about me" do Blog): "As pessoas não são apenas o que são realmente, mas o que imaginam ser e o que os outros imaginam que elas sejam."

Ana disse...

Ps.: Seu Blog nunca mais subiu mesmo. Sempre opto por visualizar TODOS os Blogs na hora de "fazer a ronda" e venho aqui, embora, pra mim, a última atualização que apareceu foi há 4 semanas...

Lélia Maria disse...

use mais 300 pulseiras de ouro, mas não exagere no perfume jamais! texto cheio de informações (sobre vc) novas (para mim).
bjs

Caminhante disse...

Sou como você. Por dentro sou meio hippie, meu punk, meio atriz, muito colorida e tatuada. Pessoas diferentes ganham a minha simpatia imediata. Fui criada pra ser lady e dentro da minha educação até que sou subversiva. Mas é tão discreto que olhando assim ninguém diz.

Lucila disse...

Mãe,
Eu queria comentar, pelo simples fato de ter adorado esse post.
Mas eu não tenho palavras p alcançar o nível desse texto.
Fica resgistrado, apenas, minha admiração - intelectual, hoje - por vc.
Beijos.
Te amo!

escrevendo com os pés disse...

Enquanto vc balança seus badulaques eu coloco meu chapéu roxo e saiu pra vida.

Belos e Malvados disse...

P/ Ana. Sobre as atualizações: não sei o que fazer. Já mexi na configuração do blog, mas acho que o problema não é por aqui. Por favor perseverem e não abandonem o Belos.

P/ Lélia. Tu sabe que as minhas pulseiras estão mais para michelin do que prá ouro... Beijinho para Lena.

P/ Caminhante. Descrição perfeita, Fernanda.

P/ Lu. Beijo querida. Menos.

P/ Heydi. o chapéu roxo tb deve funcionar bastante, né? Ótimo. rs