11 de junho de 2014

Banzo e sapatos

Faz tempo que decidi tirar de minha vida toda ideia de tristeza. Mesmo que fosse preciso parar de ouvir meus artistas favoritos (aquele que se matou com uma faca no peito. O outro que morreu afogado no afluente do Mississípi. Tantos levados por doenças avassaladoras, outros que morreram de overdose. Sem falar nos que ainda estão por ai se arranhando com a vida). 
Prosa, poesia nem pensar.
Existir na superfície. Buscar só o riso fácil, não me engajar em luta nenhuma.
Muito light.
Muito clean.
Me entreter com os desenhos animados que acompanho com meu neto, tentando enxergar a vida como ele enxerga, ainda sem dor, sem nenhuma mácula. Tudo tão fácil de resolver na última cena. 
Eu acho a vida boa, acho sim. Na verdade, não estou reclamando.
Talvez seja a tal crise da meia idade. 
As coisas parecem tão definitivas agora e, ao mesmo tempo, penso recorrentemente que a vida me espera em algum outro lugar onde não vou chegar nunca porque perdi o bonde ("e a esperança. Volto pálido para casa")
A amiga diz: "alegria vem em frascos".
E eu penso:
- Não me interessa mais ser cínica.
Talvez apenas sapatos confortáveis.
No fim, é como pular da frigideira para o fogo: superfície não se basta. E eu ando triste porque não sei mais como sair dela.

11 de março de 2014

7 de março de 2014

Ser ou não ser (antissocial) eis a questão.

Ele me convidou para uma feijoada e não fui. Depois disso a amizade ficou estranha. Nunca fomos muito ligados, mas havia uma cordialidade que ficou meio abalada depois disso. Finjo que não percebo, mas está lá o elefante no meio da sala.
Nunca fiquei chateada com pessoas que não aceitam convites meus. Sempre entendi que era uma coisa opcional e a amizade continuava. 
Talvez seja mais fácil ser antissocial em familia. Ninguém vai deixar de ser seu irmão, sua sobrinha ou sua prima se você furar um ou noventa por cento dos convites.
Presume-se que eles lhe conhecem bem e sabem que é o seu jeito. Não tem nada a ver com falta de consideração ou de afeto.
Eu não gosto mais de ir a lugar nenhum, tirando aniversário de criança e cinema. Mas agradeço de coração as pessoas que ainda lembram de mim. Mesmo que não passe disso. Tenho uma amiga de longas datas que me chamou para festas nos últimos vinte anos.
Gosto dela demais, mas nunca fui em nenhuma.
A última vez que nos encontramos ela falou sobre isso, em um tom meio de queixa. Pensei: agora vai parar.
Que nada. Alguns dias depois recebo um novo convite da criatura.
E dessa vez, pelos mais variados motivos, não tive como ir mesmo.
E não adianta ser sincero quanto a questão. As pessoas de modo geral não aceitam quando se tenta explicar os mecanismos que fazem você ter tanta resistência em socializar.
Já tentei e vi  que mentir é mais fácil. Todo mundo aceita melhor. 
- Tá, eu vou. Obrigada.
E não vai.
Então começo a pensar que o problema já não é mais só meu.

17 de fevereiro de 2014

12 de fevereiro de 2014

TOM HIDDLESTON DANCING!

Só queria saber se é pecado gostar mais de Loki que de Thor!

5 de fevereiro de 2014

I want be alone

Não tenho vocação para ser uma velha doida e divertida. Acho que sigo mais a linha Greta Garbo, tirando a questão do glamour e da beleza. Quanto mais o tempo passa, mais entro na casca, como boa canceriana. Mas às vezes acho que não é só uma questão de personalidade. É de covardia também. Essa coisa de não querer peitar o mundo. Já peitei muito, mas hoje não tenho fôlego de jeito nenhum. Olho e finjo que não vejo. Outro dia uma pessoa me disse: "Nossa Belas, você é um doce. Ninguém consegue brigar com você". Bom, não é verdade, mas mesmo assim, mesmo sem intenção, soou como uma ofensa terrível.

2 de fevereiro de 2014

Obediência

Pegando carona em um meme que está correndo o facebook

Quando eu tinha dez anos, só tinha dez anos mesmo e uma inocência cavalar comparada as crianças dos dias atuais, sem entrar no mérito da questão. Às vezes me pergunto como consegui chegar até aqui, quarenta e tantos anos, com tão pouco jogo de cintura. E não é só porque não sei sambar.
Outro dia estava em Salvador com uma amiga e a vi atravessando na frente dos carros com uma desenvoltura tão grande, enquanto eu esperava, estática e atônita, o sinal abrir.
Acho que ser obediente é meu mal.
Acho que ser obediente é muito bom para a sociedade que nos enquadra em regras, mas péssimo para o indivíduo.
Eu, que sempre me achei meio subversiva, por não agir, nem pensar como a maioria, envelheço crendo no contrário. E não desejo isso pra ninguém.

Querido espelho meu

Sinto falta do tempo em que os blogs faziam sentido.

1 de fevereiro de 2014

A cidade

É preciso que alguma coisa faça sentido
enquanto bebemos goles e goles de vodca.
Ou jogamos café pelo ralo da pia,
 ainda quente, em um dia frio.

Te mando o bilhete do trem
cartão no teu aniversário
a foto do casamento dos teus pais
e aquela outra, de tua irmã, ainda criança,
fazendo pose
em frente a árvore de natal.

Naquela cidade pequena
esquecida no tempo de alguém
que não sou eu

Não, não sou eu

Nem a menina de nome estranho
que vinha
insistentemente
nos chamar para a rua.

(Perdidos todos os mapas
estamos às moscas como os sonhos
na padaria
de seu  Januário)

nem tu, nem ninguém mais

Anne  Cerqueira
fevereiro/2014

O mundo

Não posso dizer quer o mundo
tem sido severo conosco,
meu amigo.
Mesmo que nos espalhe por ai
como penas ao vento
ou nos crave
árvores e falhas
em um único lugar do universo.

Nem posso dizer
(Mesmo agora
quando te ajudo a fazer as malas)
qualquer coisa
para atenuar a falta

é dia
faz sol
amanhã chove

e assim vamos
desfiando nossos rosários
nesse mundo
nem sempre afetuoso
nunca unânime
nunca fácil
talvez severo,
mas longe de mim dizer isso

eu que sequer me atrevo
a sair da cama
em alguns dias.

e oro baixinho
esperando que ninguém perceba
que tenho fé

ou esperança

estes fios
que nos movem
marionetes do nada


Anne Cerqueira
fevereiro 2014

28 de janeiro de 2014

Proa
 
Os rios estão aqui para nos levar
aos lugares que nunca saberemos.
Cheiros, vinhos, veios,
malas onde cabem o esquecimento,
esse fio
avesso da esperança.

Pai, mãe, barcos a vela
(proas
para romper a tormenta)
é preciso retomar a viagem.

Os rios estão aqui
e nada sabem
da distância (silêncio
que corta
a tarde)
encravada nas bagagens.

Anne Cerqueira.
janeiro/2014

19 de janeiro de 2014

Poema revisitado

Quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado. Vou ler um dos meus poemas
preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa anos em quarenta
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.
Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta.
Sou infantil, egoísta e confusa e quero te dar um presente, meu amigo
para que você me odeie profundamente
e diga:
não sei o que fazer com isso. E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa
nem má. Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta. Mas pela graça de Deus
não nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Verbo.
Meu amigo, não sei para que serve
e talvez seja esta sua única função.

Anne Cerqueira
2013