28 de janeiro de 2014

Proa
 
Os rios estão aqui para nos levar
aos lugares que nunca saberemos.
Cheiros, vinhos, veios,
malas onde cabem o esquecimento,
esse fio
avesso da esperança.

Pai, mãe, barcos a vela
(proas
para romper a tormenta)
é preciso retomar a viagem.

Os rios estão aqui
e nada sabem
da distância (silêncio
que corta
a tarde)
encravada nas bagagens.

Anne Cerqueira.
janeiro/2014

19 de janeiro de 2014

Poema revisitado

Quero te dar um presente, meu amigo
aquele velho livro ou disco
porque aqui tudo é velho
até mesmo o que acaba de sair do forno
já sai condenado. Vou ler um dos meus poemas
preferidos
para você achar que a vida tem jeito
e só os poetas sofrem
como Maiakovski
ou Bukowski que queria derreter a morte
com versos
como se derrete manteiga
e ele nem tinha ilusões, veja só
sinto pena.
De mim e de você que nada somos
e desafiamos a morte no supermercado.
Quero te dar um presente, meu amigo.
Talvez uma quantia em dinheiro
que te sustente na velhice se você chegar lá
envergado desse jeito
inútil desse jeito
da mesma forma que eu
que já vivi noventa anos em quarenta
(e foram só meses)
e nem tenho nada para te oferecer
pois tudo é gasto.
Vamos ouvir música
comer bobagens
atravessar a rua sob o sol de meio dia
porque é isso que nos resta.
Sou infantil, egoísta e confusa e quero te dar um presente, meu amigo
para que você me odeie profundamente
e diga:
não sei o que fazer com isso. E assim seremos iguais mais iguais que os outros.
Numa irmandade que não nos salva
nem preserva
não é bondosa
nem misericordiosa
nem má. Não existe por códigos especiais e secretos
nem nos torna especiais ou melhores
ou piores
ou diferentes.
Não nos subtrai, nem acrescenta. Mas pela graça de Deus
não nos pede retorno.
Toma é tua essa pedra.
Verbo.
Meu amigo, não sei para que serve
e talvez seja esta sua única função.

Anne Cerqueira
2013

14 de dezembro de 2013

Lazy

Nível de preguiça no momento. Esperando que o mundo evolua tanto que chegue o dia em que a gente apague a luz e programe a televisão para desligar com a força do pensamento.


12 de dezembro de 2013

Vidro

anda por ai
esse coração que nada sabe

se parte mil vezes
ante o aço das paredes

nada sabe
esse coração
sob o aço das paredes

solto por ai
em invólucros de vidro
tão atônitos
quanto


(Anne Cerqueira, dezembro 2013)

28 de novembro de 2013

Parabéns para você

Antigamente era uma beleza fazer aniversário de criança. Diferente de hoje  que os pais contratam o serviço, chegam e saem junto com os convidados. 
Se duvidar, os preparativos começavam antes mesmo da criança nascer, fazendo estoque de leite condensado.
Quinze dias antes da festa tinha que juntar a família para adiantar os salgados. Na véspera, vinha todo aquele processo bacana de enrolar os docinhos e biscoitinhos-que-não-acabavam mais.
- Este negócio se reproduz com o ar? - reclamava a prima.
Tudo era praticamente feito em casa. Na minha infância, a moda era confeitar moldes de madeira, cheios de detalhes, e depois colocá-los sobre o bolo. Aleluia quando os enfeites de isopor se popularizaram.
Pois bem, era tanta coisa para fazer que ninguém ligava para o aniversariante, coitadinho, que acabava super stressado na festa.
Uma vez passei meses juntando cascas de ovos para transformar em palhacinhos e dar de lembrança do aniversário de Lu, minha filha mais velha.
Um cuidado extremo para pintar o rosto, colar o cabelo de lá e a gola de papel.
A maioria ficou em casa mesmo. No lixo, depois da festa. A criançada recebia a lembrança, se empolgava e esmagava o palhaço.
Mas era uma época boa para as papelarias.
A gente nunca viu tanto papel junto. 
Coitada da floresta Amazônica.
Recordo uma festa que fomos quando os meninos eram pequenos. A mesa estava coloridíssima, linda e super inflamável.
Não deu outra. As faíscas da vela se espalharam e tudo virou cinza em cinco minutos. Incluindo a toalha da Moranguinho.
Só sobraram os convidados - que saíram correndo em algazarra. E os salgados que a dona da casa tinha escondido para "quem chegasse depois".

23 de novembro de 2013

Duas asas

A prima casou com um comerciante abastado e levava uma vida confortável. Embora me parecesse simpática, falavam que gostava de se sentir superior aos outros. Para mim, que era criança, nada daquilo fazia sentido. Só me fascinava o fato da casa dela ser a única da família que tinha xícaras com duas asas.


17 de novembro de 2013

Identidade

Coisa que mais me acontece quando atendo o telefone no trabalho.

- Alô, falo com quem?
- Com Anne.
- Oi Tuane....

Onde foi que eu errei?

A gente trata os filhos com todo amor. Cuida da educação, da saúde. Fica atento se estão usando roupa de frio, se alimentando direito.
Com quem andam. Que horas vão voltar.
Sofre quando vão morar longe, mais ainda quando passam  meia hora sem dar notícias.
Esses clichês todos que envolvem o assunto.
Então, um belo dia, numa viagem da família, alguém lembra de ligar o som do carro. Você pede:
- Coloca a Jesuton. Aquela versão que ela fez da música do Elliott Smith.
E é bem neste momento que vem o golpe. O ser humano que você criou com-todo-amor-do-mundo, grita lá do banco traseiro quase em pânico:
- Não, pelo amor de Deus. Música boa não!


31 de outubro de 2013

LA LLUVIA

Comprei um guarda-chuva que é um toldo. Então não uso porque o transtorno também é imenso. Sombrinha não dá, perco todas. Megalomaníaca e avoada. Não há salvação para mim. 


Já fiz isso várias vezes. Melhor pagar mico do que estragar a chapinha. O problema é ficar só de repente.

29 de outubro de 2013

Um pequeno conto sobre gente

Antonio passou por uma uma infância muito pobre e sofrida. Hoje a vida é bem confortável, mas sonha recorrentemente sendo perseguido por ladrões. 
Josefa comprou o vestido lindo que vinha desejando há um certo tempo. Anda meio deprimida com receio de engordar antes de aparecer uma ocasião para usá-lo.
Sérgio conseguiu fazer a tão sonhada viagem para o exterior. Mas sem saber lidar com o desconhecido quase não curtiu.
Lívia estudou horrores para ser aprovada em um concurso público disputadíssimo. Entrou em pânico com medo de perder no psicoteste.
Bia ganhou um livro bacanérrimo sobre decoração de interiores. Devolveu. Não podia ter nada daquilo mesmo.

28 de outubro de 2013

Repertório

Nunca mais fui ao cinema.
Para que sair de casa se tem a internet e posso escolher o filme que quiser em vez de ficar limitada ao que está em cartaz?
Meu marido ouve rádio online.
Não tenho paciência.
Vou no youtube, escolho o que quero e não dou chance ao aleatório. No dia de menor inspiração passo direto para os favoritos e está tudo lá.
Esta é uma das vantagens da internet. Personalizar suas escolhas para evitar perder tempo com algo que você pode considerar chato. (Tirando as publicações bizarras do Facebook, porque ai não tem jeito).
O problema de tudo ter tanto a sua cara é que também se perde o fator uau. Igual a quando outra pessoa escolhe um filme, você não tem a menor expectativa sobre ele e acaba saindo do cinema maravilhada. Com um repertório maior.
Acho que é isso. Conviver é uma maçada das grandes. Porém quanto mais você se fecha em seu mundinho, menor vai ficando seu repertório.
O medo é de estar lendo os mesmos poetas do tempo de universidade. E só. E ouvindo apenas os mesmos cantores de sempre. E curtindo as mesmas páginas todos os dias. Quando o mundo é tão vasto.
No tempo em que os blogs bombavam era comum ter o fator uau. No Facebook ele é menor porque você também ESCOLHE as páginas de segue. Quase um jogo de espelhos. Parece que o universo é mais condensado ou eu não sei usar a ferramenta.
Tá, você escolhe o blog que lê, mas a pessoa tem mais liberdade para se expressar que em outras mídias.
E não há nada errado nisso tudo que citei.
É só uma questão de repertório. E de quando ele fica repetitivo. E o lance de ninguém ser uma ilha.

13 de outubro de 2013

Domingo

Você junta um monte de tralha dos armários para jogar fora. Coisa que está ali há décadas e nunca serviu para nada.  Mas bate aquela dúvida no meio do caminho: E se eu me desfizer disso tudo e precisar depois? Espera. Vou encontrar um jeito de reciclar. (Só que não).
Ai guarda tudo de novo.
E assim segue a humanidade: vivendo de esperança e apego.