22 de janeiro de 2010

Microconto

A casa agora respirava silêncio sem o martelar nervoso das máquinas ou o barulho do papel retirado bruscamente, amassado e jogado fora em um gesto destituído de qualquer autocomiseração. No cômodo menor, o homem enclausurado numa mudez aguda e deliberada. Um sono imenso que calava tudo. Horas, dias... até que alguém por acaso trouxesse a senha para devolvê-lo à existência. O carteiro através da janela, o antigo motorista que passava para rever o lugar, qualquer pessoa que ainda lembrasse e o chamasse pelo nome. Não o vento, mas sons inteligíveis vindos da rua.
Assim, sem notar, o homem que tanto negava as palavras era - dolorosa e continuamente - recriado por elas.

4 comentários:

Lucila disse...

Que lindo, mãe!

Assis Freitas disse...

Gosto do que escreves. Sou extremamente passional com o que leio. As palavras, tenho muito medo delas, das suas astúcias (Rosa), mas também delas sou prisioneiro. É bom te ler. Abraço.

Belos e Malvados disse...

Também tenho muito medo delas, Assis. Quanto mais escrevo, mais penso nisso. Juro.
Outro abraço.

Lélia disse...

lembrei do filme "o carteiro e o poeta". o medo das palavras é pq elas nos revelam (ainda mais pessoas que doem com as dores que cercam - como vc, por exemplo), mesmo quando falseamos, disfarçamos ou coisa parecida, em algum momento elas saem como furúnculos, suor ou espirro. cabe a nós escolher a forma mais natural e menos dolorosa. difícil mesmo é esta escolha.